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A
leitura da Bíblia na tradição reformada
Rev.
Lysias Oliveira Santos
Palestra apresentada no Presbitério Bandeirante no dia
11 de julho de 2005 (resumo)
“Que
regra deu Deus para nos dirigir na manei
ra de o glorificar e gozar?
A Palavra de Deus, que se acha nas Escrituras
do Velho e Novo Testamentos, é a única regra para nos diri
gir na maneira de o glorificar e gozar”
Catecismo Menor de Westminters, p.2
Sendo esta a primeira de uma série de palestras sobre assuntos
específicos dentro da tradição reformada, importa
de início dizer três palavras sobre a tradição
reformada.
a) John H. Leith inicia seu livro sobre a tradição reformada
com uma desmistificação da palavra “tradição”,
mostrando que na história da religião cristã ela
é elemento inseparável do evangelho. O evangelho se propaga
por meio da tradição passada de geração em
geração. Por isso em cada tempo e lugar ele se manifesta
pelo testemunho das Escrituras, pelas definições confessionais
e pelos meios específicos de cada cultura. Cada época e
lugar tem a sua forma especifica de testemunhar “a fé que
de uma vez por todas foi dada aos santos”. Por isso é possível
distinguir tradições dentro da grande tradição
cristã.
b) A tradição reformada difere da tradição
luterana pelo seu desenvolvimento histórico e por características
especiais. Do ponto de vista histórico podemos dizer muito resumidamente
que a tradição reformada tem sua origem na Suíça
cujo principal nome, em seu início, foi Zwínglio (1519),destacando-se
depois a figura de João Calvino e a cidade de Genebra como seu
centro de irradiação. Atinge em seguida a França,
onde a igreja se organiza em Consistório, Colóquio, Sínodo
Provincial e Sínodo Nacional e se espalha pela Holanda, Suíça.
Na Grã Bretanha forma grande tradição na Escócia,
desenvolve-se na Inglaterra ao lado da Igreja oficial e se implanta também
na Irlanda. Nos Estados Unidos ela foi introduzida pelos huguenotes, reformados
da Inglaterra, Holanda e Escócia e batistas de formação
reformada. Quanto às marcas gerais, a tradição reformada
ateve-se e ampliou os princípios básicos da reforma de Lutero:
a autoridade das Escrituras pelo Espírito Santo, justificação
pela fé, sacerdócio universal, santidade de vida. Ela caracterizou-se
por uma grande ênfase nas decisões conciliares, daí
a produzir um número de confissões muito maior do que a
tradição luterana; reconhecimento das limitações
humanas; apego ao princípio cristológico e, acima de tudo,
a fé centrada em um Deus vivo e soberano.
c) Quanto ao assunto específico desta apresentação,
a leitura da Bíblia na tradução reformada, faremos
um retrospecto do uso da Bíblia no período pré –
tradição reformada, examinaremos o uso da Bíblia
na tradição reformada e o seu uso em período pós
reformado. O título da terceira parte é aqui adotado com
objetivo didático, já que historicamente ainda estamos dentro
da tradição reformada. Mas atualmente tem havido tanta diversificação
nos usos em nossas igrejas, que estudo desta natureza exige um balanço
para ver onde estão tais tradições na atual prática
eclesiástica.
Das origens até o início da tradição
reformado
Desde o início, a Igreja usou a Bíblia para o desenvolvimento
de seu trabalho.Os autores do Novo testamento usaram a Bíblia para
a fundamentação de seus ensinos e escritos. Os primeiros
atores do fim do primeiro século e início do segundo adotaram
as formas dos livros do NT: escreveram cartas, evangelhos, apocalipses.
Apesar de serem poucas as informações que temos sobre o
culto no início da Igreja, sabemos que a Bíblia era lida
na sua programação litúrgica. Em seguida, alem de
seu emprego no ensino geral e no culto, a Bíblia foi usada nas
controvérsias contra as ramificações cristãs
consideradas heréticas.
Quais as tarefas que a Igreja tinha de cumprir para que a Bíblia
atingisse estes objetivos? A partir da metade do segundo século
a igreja passou a mostrar uma acentuada preocupação com
a seleção dos livros reconhecidamente sagrados, com o uso
que poderia ser feito dos que não entrassem para o rol dos canônicos,
com a tradução para as línguas dos povos evangelizados
e com a qualidade da reprodução destes textos.
Como a Bíblia era usada para fundamentar a idéia dos mestres
e pregadores, cedo percebeu-se que a situação tinha de se
inverter, primeiro teria de vir a interpretação do verdadeiro
sentido do texto para que o seu uso fosse correto. Neste sentido as preocupações
básicas eram: quem estava autorizado a dar esta interpretação?
A Bíblia é a única fonte de autoridade ou deve ser
usada ao lado da palavra oficial da igreja? Ela tem de ser entendida por
si mesma ou com a ajuda de métodos tomados da cultura da época?
O texto tinha de ser ensinado em sua íntegra ou poderia ser resumido
ou simplificado para o entendimento de todos?
Destas preocupações surgiram diversas práticas. Na
questão da autoridade entre a comunidade local, a palavra de um
mestre ou a decisão dos Concílios pesou fortemente a aceitação
do texto nas comunidades locais para a decisão sobre a sua canonicidade.
Era levada a sério também a palavra da autoridade eclesiástica.
Os concílios só mais tarde tomaram parte na decisão
sobre os livros canônicos. Desde o início houve o confronto
entre a tradição oral que vinha das primeiras testemunhas
do cristianismo e os documentos escritos, conflito que se generalizou
na disputa entre a Bíblia e a tradição. Na busca
de um método de interpretação as comunidades mais
ligadas à cultura helenística aplicaram a Bíblia
as práticas interpretativas daquela cultura, procurando “o
corpo, a alma e o espírito”do texto aproveitando-se principalmente
do método alegórico para determinar o sentido do texto,
ao passo que outras comunidades se ativeram ao seu sentido literal. Preferência
era dada também à linha filosófica ligada ao platonismo
no sentido de ter a Palavra de Deus de se acomodar às possibilidades
de conhecimento da alma humana. Esta tendência domina a orientação
da interpretação bíblica, desde a escola de Alexandria,
passando por Agostinho e entrando na Idade Média Escoto Erígena
e Anselmo. Na Idade Média, porém a corrente aristotélica
representada por Abelardo e, principalmente por Tomás de Aquino,
valoriza a lógica para explicar racionalmente todos os mistérios
referentes à Bíblia e a sua interpretação.
O texto poderia ter interpretado literalmente; tropologicamente (com respeito
ao cristão individual); anagogicamente (com respeito à eternidade
e alegoricamente). Quanto à forma de apresentação
do texto, tentativas foram feitas principalmente em textos repetidos,
como os evangelhos, no sentido de reuni-los em um só, de harmoniza´-lo,
de reproduzir pequenas porções para o uso devocional e litúrgico,
de transformar os assuntos dos textos em pequenos axiomas de fé,
de apresenta-lo nas artes plásticas, principalmente nos vitrais
e adornos ds igreja para a com preensão dos menos instruídos
( a “Bíblia ediotarum”)
Estas preocupações atingiram os reformadores do século
XVI incluindo os que estão na base da tradição reformada,
como passaremos a ver.
A leitura da Bíblia na tradição
reformada
A Reforma se firma no princípio escriturístico para a interpretação
da Fé. Lutero então teve de lidar com todos os problemas
ligados ao assunto, como chegaram até ele. Pressionado pela autoridade
da Igreja, declara o poder da Palavra e afirma ser o Espírito Santo
a única fonte de autoridade para a interpretação
das Escrituras. Diante da grande força que a tradição
ocupava nas decisões eclesiásticas, defende a “sola
Scriptura” como a Palavra autorizada de Deus. Sua formação
humanística, contudo, não o deixa desprezar os Pais da Igreja
da Igreja. Pelo contrário ele os defende de falsos aproveitamentos
que existiam de seus ensinos aderindo a linha agostiniana de interpretar
a Bíblia, abandonando, porém, gradativamente, a interpretação
alegórica. Assim rejeita a interpretação axiomática
da Bíblia segundo a corrente aristotélica em uso seu tempo.
Estas posições refletem-se em sua prática no uso
da Bíblia. Dedicou-se juntamente com Melanchton à tradução
da Bíblia procurando levar o Livro Sagrado às pessoas mais
humildes. Expõe sistematicamente os livros da Bíblia em
seus sermões. Emite julgamento de valor sobre diferentes livros.
Classifica os livros da Bíblia, e o seu critério de valor
é o anuncio do evangelho de Cristo (Tiago, Apocalipse, etc.). João,
Paulinas (Rm), I Pedro constituem para ele o cerne ou medula da Bíblia..
Os pioneiros da Tradição reformada seguem estes mesmos princípios.
Zwinglio Escreve as 15 teses sobre autoridade das Escrituras. Inicia seu
pastorado em Zurique pregando sobre todos os livros do NT. As primeiras
Confissões reformadas (Brasiliense, 1534: 1a Helvética 1536,
sob sua inspiração, iniciam-se com a importância das
Escrituras. Na busca do verdadeiro sentido,Escolampadio, Bucer exegetas
da tradição reformada usam os comentários judaicos.
Calvino
prioriza desde o início a Bíblia ao desenvolver ao mesmo
tempo o trabalho de exegeta, teólogo sistemático e pregador
. Como exegeta comentou quase todos os livros da Bíblia. Seu monumental
tratado de teologia inicia-se falando do conhecimento de Deus e das Escrituras
como única fonte para este conhecimento. Seus sermões escritos
são exposições dos principais textos da Bíblia.
Livros prediletos: Rm, Sl, Mt, Jo, I Cor, Gn. Suas preferências
metodológicas na interpretação bíblica são:
mais retórica e menos dialética (Agostinho, Cícero);
mais “sapiência”, menos “ciências”.
Rejeita assim a teologia natural. Para ele a Bíblia: é os
óculos para a revelação de Deus; ela se interpreta
pela ação do Espírito Santo. Sua posição
na inclina nem para os racionalistas e nem para osespiritualistas. O objetivo
da Bíblia é a apresentação da salvação
em Cristo. Prefere o método histórico-gramatical (Crisóstomo)
ao alegórico não caindo porém no literalismo.
As Confissões que se seguiram dentro da tradição
reformada também partiam do conceito e do uso das Escrituras.
2ª
Geração
Calvino morre 1564. Comentaristas (Melanchton, Beza, Scolampadio, Brucer)
enfrentam a Contra-Reforma (Trento 1545-63) e Socino (racionalismo, unitarismo)
e por isso passaram a usar a argumentação racional em suas
exposições da Bíblia. Isto deu origem ao chamado
escolasticismo protestante que se caracterizou por uma teologia abstrata,
e à negação da acomodação divina às
limitações da linguagem humana, passando, ao contrario a
dar explicações lógicas para todas as dificuldades
encontradas na interpretação. O grande nome do escolasticismo
protestante foi Turretini, professor em Genebra Genebra. Na exposição
de sua doutrina sobre as Escrituras ele cita 175 autoridades e não
cita nem uma vez a Calvino. Explica racionalmente todos os eventos sobrenaturais,
afirmando que o Espírito Santo orienta a produção
de edições mais confiáveis. A definição
de fé representativa deste momento, a“Forma Consensual Helvética
1675 afirma que a a adoção da crítica bíblica
constitui um risco. É esta teologia que domina por mais de cem
anos no seminário de Princeton . A partir daí a leitura
da Bíblia vem sendo pressionada pela crítica bíblica
que se desenvolveu na Alemanha a partir do século XVIII e da posição
da chamada neo-ortodoxia sobre o sentido da Palavra de Deus. O presbiterianismo
nos Estados Unidos ressente-se ainda hoje de uma definição
mais clara sobre os procedimentos no uso e na interpretação
da Bíblia.
Problemas atuais sobre o uso da Bíblia na tradição
reformada
Enumeraremos abaixo e faremos breves considerações sobre
algumas questões que podem ser levantadas quanto ao uso que as
igrejas que se julgam herdeiras da tradição reformada estão
fazendo hoje.
Pregação – Até onde as pregações
estão fiéis ao princípio reformado de serem fiéis
exposições das Escrituras?
Fundamentalismo e Palavra de Deus – O que constitui prioridade na
nossa leitura da Bíblia, a nossa definição de todos
os detalhes do texto ou a abertura para que o Espírito Santo nos
faça receber a Palavra de Deus testemunhada nas Escrituras.
A Bíblia no culto Aqui comporta a discussão sobre a prática
da Igreja através dos tempos, do uso de textos apropriados (lecionários)
para as diferentes ocasiões, motivações e momentos
do culto e do caráter bíblico dos hinos, orações
e celebração dos sacramentos.
Tradução da Bíblia Pelo menos três assuntos
podem ser levantados. As formas de produção da Bíblia
nos nossos dias; a questão da tradução autorizada
e as edições comentadas.
Contextualização da leitura da Bíblia – Pode
ser aqui discutido o uso da Bíblia no tratamento dos problemas
sociais, do avanço da ciência e das novas tecnologias, o
prepara das novas gerações para representarem a tradição
reformada no mundo em que vierem a viver.
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