É preciso dizer que ao defendermos o Presbiterianismo, não estamos, por exemplo, fazendo defesa pura e simplesmente de uma instituição, no sentido denominacional. Antes, estamos defendendo a base confessional da nossa fé. Com exceção da doutrina da (Predestinação/eleição), todas as demais doutrinas da tradição Presbiteriana são atuais e atendem as necessidades confessionais da teologia contemporânea.
Portanto, nesse ensaio, quero concentrar esforços para analisarmos o motivo da distância entre aplicação e manutenção das doutrinas do Presbiterianismo e a práxis cristã. Para esta análise, é preciso observar vários conceitos da origem do Protestantismo. Quanto ao Presbiterianismo brasileiro, apontarei alguns problemas que prejudicaram teologicamente a sua inserção no país. Por fim, comentarei sobre a relevância da doutrina Presbiteriana na sociedade brasileira.

1. A influência de Lutero na Teologia de Calvino.

O centro do pensamento de Calvino está intimamente ligado à teologia de Lutero: a radical pecaminosidade do ser humano, o cristocentrismo, a plena eficiência da graça, a justificação somente pela fé, a centralidade da palavra pregada(4) . Tais elementos são tomados tanto da teologia de Lutero quanto de sua formação humanista e jurídica. A principal obra de Calvino intitulada Institutas da Religião Cristã, reflete a estreita influência dos escritos de Lutero. Talvez isto se aplica ao fato de Calvino não ter sido formado em teologia; o conhecimento teológico era de um autodidata(5) . Apesar de notória e reconhecida a influência da teologia de Lutero no pensamento de Calvino, há um ponto de divergência entre os dois teólogos. A doutrina da eucaristia defendida por Calvino é totalmente diferente da de Lutero. Para Calvino, o corpo e o sangue de Cristo na eucaristia são impossíveis sem a ação do Espírito Santo; o crente participa espiritualmente do corpo e sangue de Cristo. Para Lutero, há o mistério da consubstanciação, presença real de Cristo na eucaristia. Outro fato que podemos listar como diferença entre Calvino e Lutero é o da doutrina da graça. Lutero acentuou sua teologia na tese sola fide. Já Calvino acentuou sua teologia na tese sola gratia. É verdade que isto não chegou a ser diferença entre os dois, porém, é notória a ênfase dada por Calvino à justificação pela graça mediante a fé. Para Calvino, a santificação é apresentada antes da justificação. Isso quer dizer que a fé não pode existir antes da santificação. Afora estes dois pontos, podemos afirmar que a teologia de Lutero é fonte direta para a reflexão teológica de Calvino.
Em 1536, Calvino aos 26 anos de idade, publicou pela primeira vez a sua obra de cunho teológico, intitulada Instituição da Religião Cristã. Esta edição foi feita na Basiléia, em latim, inicialmente contendo 516 páginas, divididas em seis capítulos. Esta obra foi dedicada a Francisco I, rei da França, que vinha difamando e perseguindo os amigos protestantes de Calvino na França. Foi a obra mais completa e, até então, era a única que apresentava detalhadamente a fé protestante. Os primeiros quatro capítulos tratavam sobre a lei, o Credo, o Pai Nosso e os sacramentos. Os últimos dois, de tom mais polêmico, resumiam a teologia protestante com respeito aos “falsos sacramentos” romanos e à liberdade cristã(6).

(4)DREHER, Martin N. A Crise e a Renovação da Igreja no período da Reforma. São Leopoldo, Sinodal, 1996 .p.98.
(5)Idem,p.94.
(6)GONZALES, Era dos Reformadores. São Paulo, Vida Nova, 1986, p.111.