Ser Presbiteriano Independente
Palestra para o Presbitério Bandeirante
IPI de Vila Sabrina, São Paulo, SP

Gerson Correia de Lacerda


Introdução
1. Experiência pessoal: nascido e criado em Osasco, SP, conheci somente ramo Independente do presbiterianismo brasileiro, até a idade em que fui para o Instituto José Manoel da Conceição; somente então descobri que havia um outro presbiterianismo, que não era o meu; mais tarde, tendo contato com outras igrejas, comecei a notar que o termo “independente”, no nome da minha igreja, provoca perguntas do tipo “o que quer dizer ‘independente’? ou por que ‘independente’?”

2. De vez em quanto, enfrentamos algumas brincadeiras por causa de nosso nome; são feitas perguntas como: “independente de quê?” ou “independente do Brasil”?

3. Já houve tentativas de se retirar o “independente” do nosso nome; na reunião extraordinária da Assembléia Geral, realizada em São José do Rio Preto, em 2004, houve uma proposta de mudança para “Igreja Presbiteriana Brasileira”, que foi rejeitada.

4. O estudo desta noite será sobre o termo “independente”, que foi colocado no nome de nossa igreja.


1) Num certo sentido, nenhuma igreja é independente
1.1. Texto de Paulo aos Coríntios:
Cristo é como um corpo, o qual tem muitas partes. E todas as partes, mesmo sendo muitas, formam um só corpo. Assim, também todos nós, judeus e não-judeus, escravos e livres, fomos batizados pelo mesmo Espírito para formar um só corpo. E a todos foi dado de beber do mesmo Espírito...Portanto, o olho não pode dizer para a mão: “Eu não preciso de você”. E a cabeça não pode dizer para os pés: “Não preciso de vocês”...Se uma parte do corpo sofre, todas as outras sofrem com ela. Se uma é elogiada, todas as outras se alegram com ela. Pois bem, vocês são o corpo de Cristo, e cada um é uma parte desse corpo. (1 Co 12.12-13; 21; 26-27.

1.2. Paulo procurou colocar em prática o ensino a respeito da unidade da igreja:
a) proclamando o evangelho aos gentios;
b) promovendo o levantamento de ofertas entre os gentios em favor dos cristãos da Judéia (1 Co 16.1-4).

1.3. A unidade não permite a independência de qualquer parte em relação à Igreja Una, Santa, Católica e Apostólica, espalhada por toda a face da terra e de todos os tempos. Qualquer igreja deve estar sempre em comunhão íntima e profunda com a igreja de todo tempo e lugar.

1.4. O fato de sermos Igreja Presbiteriana Independente não nos isola nem da Igreja nem do Presbiterianismo.

2) Em certo sentido, todas as igrejas devem ser independentes, mas muitas vezes algumas igrejas querem ter dependentes

2.1. Um texto bíblico para ilustrar:
Os seguidores de Jesus foram espalhados pela perseguição que havia começado com a morte de Estevão. Alguns foram até a região da Fenícia, a ilha de Chipre e a cidade de Antioquia e anunciavam a palavra de Deus somente aos judeus. Mas outros, que eram de Chipre e da cidade de Cirene, foram até Antioquia e falaram também aos não-judeus, anunciando a eles a boa notícia a respeito do Senhor Jesus. O poder do Senhor estava com eles, e muitas pessoas creram e ser converteram ao Senhor. Essas notícias chegaram até à igreja de Jerusalém, que resolveu mandar Barnabé até Antioquia. Quando chegou lá e viu como Deus tinha abençoado aquela gente, Barnabé ficou muito alegre. E animou todos a continuarem fiéis ao Senhor, de todo o coração (At 11.19-22).

2.2. A princípio, a igreja de Jerusalém queria controlar toda a igreja de Cristo, estabelecendo um modelo único de ser igreja; segundo esse modelo, todos os cristãos tinham de ser judeus, antes de serem cristãos; tinham de se submeter aos costumes e à lei dos judeus, se quisessem ser da igreja.

2.3. Por causa disso, reuniu-se o Concílio de Jerusalém (At 15), quando houve forte discussão sobre o assunto; a decisão permitiu que a igreja dos gentios fosse “independente” da igreja dos judeus, tendo liberdade da lei e dos ritos da religião judaica.

2.4. O exemplo serve para ilustrar o que ocorreu no presbiterianismo “independente”: o presbiterianismo norte-americano procurou reproduzir no Brasil suas características; o presbiterianismo “independente” representou a afirmação de que somos um presbiterianismo brasileiro, e não norte-americano ou europeu, o que é perfeitamente legítimo, do ponto de vista bíblico e teológico.

3) A primeira grande manifestação do presbiterianismo independente ocorreu antes da organização da Igreja Presbiteriana Independente

3.1. Breve biografia de José Manoel da Conceição:
a) nasceu no dia 15 de março de 1822
b) foi educado por seu tio-avô, o padre José Francisco de Mendonça
c) foi ordenado, passando a ser auxiliar de seu tio e, depois, padre encomendado, percorrendo várias cidades do interior paulista (Limeira, Monte Mor, Piracicaba, Taubaté, Ubatuba, Santa Bárbara, Brotas) – de 1844 a 1862
d) tornou-se vigário sem igreja, de 1862 a 1864
e) encontrou-se com o Rev. Alexander Latimer Blackford, em 1863; fez sua profissão de fé em 23/10/1864; foi ordenado pastor em 16/12/1865
f) levou o presbiterianismo para o interior
g) faleceu no Natal de 1873

3.2. Conceição acabou entrando em atrito com os missionários presbiterianos norte-americanos, por diversos motivos: os missionários desejavam que trabalhasse de forma mais organizada e sistemática; Conceição não era compreendido em suas crises; etc.

3.3. Uma interpretação de Conceição: por detrás dos atritos entre Conceição e os missionários norte-americanos, havia a questão do “presbiterianismo independente”, isto é, Conceição defendia um “presbiterianismo abrasileirado” e não norte-americano:
Se queremos imprudentemente comunicar a homens sem preparatório algum verdade que lhes são absolutamente incompreensíveis...não promoveremos assim a ilustração...Tudo tem seu tempo. Há muitos homens incultos que são crianças a muitos respeitos, que devem ser doutrinados com grandes circunspecção...Respeitem-se, portanto, os costumes e usos antigos do povo, que, em falta de mais profundos esclarecimentos, são aptos para guiá-los e contê-los no bem. Ó meu Deus, eu respeitarei a religião do ignorante – a fé daqueles que não têm tantas ocasiões de conhecer-vos, de venerar-vos de modo mais digno (Léonard, O Protestantismo Brasileiro, p. 65).

3.4. Esse protestantismo abrasileirado respeitaria as crenças do povo e não condenaria a cultura brasileira como sendo pagã.

4. A organização da nossa igreja foi o segundo grande esforço de se estabelecer um presbiterianismo independente

4.1. Alguns exemplos da atuação de Eduardo Carlos Pereira (1855 a 1923):
a) Sociedade Brasileira de Tratados Evangélicos, em 1884, para publicar trabalhos nacionais, sobre temas nacionais, em espírito de cooperação entre as denominações;
b) Plano de Missões Nacionais, em 1886, para despertar a igreja para a responsabilidade missionária, a fim de evitar distorções que privilegiavam os norte-americanos
Salário do Rev. J. T. Houston 450; aluguel 135; filho 20; total 605
Salário do Rev.J. M. Kyle 450; aluguel 135; total 585
Salário do Rev. A. B. Trajano 123; aluguel 81; total 204 (3o Caderno do Centenário, p. 39)
c) Implantação do Seminário: aprovado pelo Sínodo em 1888, durante muito tempo não saiu do papel por causa das divergências entre missionários nortistas e sulistas; o Rev. Eduardo abriu o Instituto Teológico, em 1893.

4.2. Foi a primeira igreja protestante no Brasil a se manter com recursos nacionais, sendo um presbitério independente em 1903 e um sínodo independente em 1908.

5. Uma pergunta importante: até que ponto somos independentes?

5.1. Ainda não temos uma confissão de fé nacional

5.2. Estamos começando a ter uma hinologia brasileira

5.3. Estamos no início da caminhada por uma teologia não importada