MINISTÉRIO
DA EDUCAÇÃO
SUPERANDO
A FRAGMENTAÇÃO E A OPOSIÇÃO NA EDUCAÇÃO
Fernando Haddad,
atual ministro da educação, fez a seguinte análise
da educação brasileira em recente artigo publicado na
Folha de São Paulo: “Nas últimas décadas,
desenvolveu-se visão fragmentada da educação como
se níveis, etapas e modalidades da educação não
fossem momentos de um processo, cada qual com objetivo particular, mas
dentro de uma unidade geral. Criaram-se falsas oposições.
A mais indesejável foi a oposição entre educação
básica e superior”. Os dois aspectos, fragmentação
e oposição, que o ministro aponta como negativos na educação
brasileira, também estão presentes na atividade educacional
de nossa igreja.
Ao longo dos anos desenvolvemos uma visão fragmentada da educação
na IPI do Brasil. Acabamos “departamentalizando” excessivamente
a missão educacional da Igreja. Seja a educação
cristã infantil ou o curso teológico para formação
de pastores, o alvo final será sempre a educação
do povo de Deus. Seja a preparação de um músico
para conduzir o grupo de louvor ou de um missionário para anunciar
o evangelho, a meta final será sempre a mesma: “o aperfeiçoamento
dos santos para o desempenho de seu serviço, para a edificação
do corpo de Cristo...” (Efésios 4.12). Deste modo, para
que a IPI possa cumprir com fidelidade de sua missão educacional
faz-se necessário superar a fragmentação de nossa
visão.
Aos males, advindos da fragmentação, devem ser acrescidos
os da oposição. Oposição entre formação
missionária e formação pastoral, entre estudo e
espiritualidade, entre crescimento e qualidade, entre outras. Tais oposições
são artificiais e não se sustentam à luz da Bíblia.
Deus não nos ordena fazermos ou sermos isto ou aquilo, mas isto
e também aquilo. De clareza ímpar foi a lição
de Jesus aos fariseus: “...devíeis, porém, fazer
estas cousas, sem omitir aquelas!” (Mateus 23.23) QUE É
EDUCAÇÃO CRISTÃ?
Antes de responder o que se entende por educação cristã,
seria útil indagar sobre o que é educação,
num sentido amplo. Muitas definições são possíveis,
mas particularmente gosto da seguinte definição: “educação
é o empenho deliberado, sistemático e continuado em transmitir,
evocar ou adquirir conhecimento, atitudes, valores, práticas
ou sensibilidades, bem como quaisquer decorrências desse esforço”.
(Cremim apud Groome p. 134). Esta definição aplica-se
perfeitamente ao ministério educacional da Igreja. Em nossas
diferentes modalidades de reuniões semanais (escola dominical,
grupos familiares, reuniões de jovens etc) estamos nos empenhando
de forma sistemática e continuada na educação cristã.
Por meio de tais reuniões vamos construindo nosso conhecimento
da Bíblia e da vida cristã, bem como vamos desenvolvendo
atitudes, valores, práticas e sensibilidades próprias
da fé cristã.
Devemos destacar dois aspectos importantes da educação
cristã. Primeiro – a educação deve ser permanente,
pois o cristão se educa a vida inteira. Não há
ninguém que possa dizer: “nada tenho mais para aprender”.
Segundo – a educação deve ser transformadora, primeiro
das próprias atitudes do coração, mas também
das realidades que nos cercam. Quanto a isto, somos obrigados a reconhecer
que muito do que é ensinado em nossas escolas dominicais serve
mais ao entretenimento bíblico do que aos propósitos de
transformação do coração e das realidades
que nos rodeiam. Entretenimento bíblico é o conhecimento
meramente informativo, conhecimento que não se traduz em aplicação
prática para a vida do cristão.
PARA QUE
UM
MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO NA IPI?
A criação
do ministério da educação nasce da percepção
da amplitude da tarefa educacional da IPIB. Não educamos apenas
na Escola Dominical ou nos Seminários. Educamos também
por meio de nossos cultos, de nossas músicas, do cultivo de nossa
memória denominacional. Para que os esses diferentes meios atinjam
plenamente seus fins, há necessidade de planejamento e de intencionalidade
nas ações.
Hoje contamos com 3 Seminários (São Paulo, Londrina e
Fortaleza) e 3 Centros de Treinamento de Missionários (Florianópolis,
Campinas, Natal). Além disso, dispomos de 2 Extensões
dos Seminários (Brasília e Rio de Janeiro). A IPI tem
procurado, por meio dessas iniciativas, descentralizar geograficamente
as “casas de formação” de pastores e missionários
e abrir alternativas para a formação de missionários.
Porém, é preciso, por um lado, preocupar-se com a qualidade
da formação, por outro, assegurar condições
de trabalho e produção acadêmicas aos docentes de
nossas instituições de educação.
O Ministério da Educação possui também como
grande desafio a viabilização da educação
cristã permanente dos membros das nossas igrejas. Para isso é
fundamental a estruturação do trabalho da Secretaria de
Educação Cristã. As nossas igrejas precisam receber
material de qualidade com pontualidade. As nossas revistas, que têm
contado com altos e baixos, são produzidas a partir da generosidade
e desprendimento de pessoas voluntárias. Não se trata
de extinguir a contribuição voluntária, mas de
estruturar o trabalho de tal forma que seja garantida a qualidade, de
maneira que a tarefa não sobrecarregue apenas algumas pessoas.
Ainda no campo da educação cristã precisamos dedicar
atenção especial ao material infantil. As mesmas questões
levantadas acima, aplicam-se à produção do material
infantil. Todavia, além da produção do material
precisamos contemplar em nossas “casas de formação”
a qualificação dos professores que atuam nas classes infantis.
Cabe ainda ressaltar que as instituições são meios
para execução de um fim, que no nosso caso é a
missão. Deste modo, nosso grande desafio é a flexibilização
das instituições de educação em função
da missão.
GRANDES
DIRETRIZES PARA A
AÇÃO DO MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO NA
IPI DO BRASIL
Listamos abaixo
as macro-diretrizes que deverão guiar as ações
de planejamento e coordenação da educação
em nossa igreja.1. A educação deve promover a glória
de Deus.
A educação, na perspectiva cristã, deve formar
uma vida orientada para a promoção da glória do
Deus vivo. Mas as pessoas podem, e geralmente têm, visões
divergentes do que significa glorificar a Deus. O Breve catecismo nos
ajuda com suas perguntas iniciais:
Qual é o fim principal do homem?
O fim principal do homem é glorificar a Deus, e gozá-lo
para sempre
Que regra Deus nos deu para nos dirigir na maneira de o glorificar e
gozar?
A Palavra de Deus, que se acha nas Escrituras do Velho e do Novo Testamento,
é a única regra para nos dirigir na maneira de o glorificar
e gozar.
O que as Escrituras principalmente ensinam?
As Escrituras ensinam, principalmente, o que o homem deve crer a respeito
de Deus, e o dever que Deus requer do homem.
Entendemos que somente uma educação comprometida com as
Escrituras pode promover a glória de Deus. João Calvino
dizia:
“A Escritura é a escola do Espírito, por isso não
ensina nem demais e nem de menos”. 2. A educação
deve ocorrer na comunidadeA cultura contemporânea é essencialmente
promotora do individualismo. Não é de estranhar que pessoas
“espirituais” tenham grandes dificuldades em se fixarem
por muito tempo numa Igreja. A questão central para a educação
numa perspectiva bíblica é se as pessoas estão
crescendo espiritualmente. Para que isto ocorra será preciso
olhar com novos olhos o papel que a comunidade local, com todos os seus
conflitos, desempenha em nosso crescimento espiritual. Jean Vanier ajuda-nos
a entender o que significa viver em comunidade:
Se o cume de uma comunidade está na celebração,
o seu coração é o perdão. A comunidade é
o lugar do perdão. Apesar de toda a confiança que podemos
ter uns nos outros, há sempre palavras que ferem, atitudes em
que a gente se põe na frente do outro, situações
em que as suscetibilidades se chocam.. Se se entra numa comunidade sem
saber que se entra para descobrir aí o mistério do perdão,
logo chegará a decepção (1985, 25-26). Com freqüência,
cristãos interessados em uma vida espiritual mais intensa, colocam-se
contra a Igreja local e suas rotinas. Muitos acabam retirando-se em
busca de algo melhor. S. C. Guthrie resume bem essa situação
ao dizer que:
Em nossa época, existe, de fato, uma fome desesperada por uma
nova espiritualidade, que sopre uma nova vida em nossa vida individual,
em nossa igreja e no mundo ao nosso redor, que estão mortos.
Mas essa fome não pode ser satisfeita procurando-se escapar da
comunidade cristã em direção a uma espécie
de falsa espiritualidade narcisista e farisaica, que é popular
tanto na igreja como em nossa sociedade secular hoje.
A verdadeira espiritualidade só é atingida quando os cristãos
não são demasiadamente “espirituais” e se
abrem para reconhecer a prometida presença e obra do Espírito
Santo na e através da pregação, ensino, culto e
práticas sacramentais da igreja, que nem sempre são muito
sensacionais e que, de fato, algumas vezes, tornam-se muito maçantes
e rotineiras. (2000, 173-174).3. A educação deve comprometer-se
com a vida em sociedade
A educação cristã, por ser essencialmente ética,
deverá estar comprometida com todas as formas de concretização
do amor, de manutenção e salvação da vida.
Isto implica em ver espiritualidade fora da Igreja e em reconhecer que
o Espírito de Deus age também no mundo por meio daqueles
que não são cristãos. Calvino, o grande reformador,
é quem nos diz:
Se alguém pergunta: “Que relação pode ter
o Espírito Santo com os não cristãos, tão
afastados de Deus?” Respondo prontamente que a Bíblia ao
dizer que o Espírito de Deus reside tão somente nos crentes,
refere-se, na verdade, ao Espírito de Santificação,
pelo qual somos consagrados para Deus. Entretanto, Deus não cessa
de encher, vivificar e mover com o poder de seu Espírito todas
as criaturas… (Calvino, 1967, p.186)Não devemos desprezar
a ação do Espírito de Deus no mundo contemporâneo.
Podemos e devemos nos associar aos grupos que militam em torno da verdade
e da justiça. A espiritualidade cristã deve nos aproximar
dessas lutas, sabendo que ali o Espírito de Deus também
se faz presente.Conclusão Articular a educação
em torno destes três grandes eixos – a glória de
Deus, a comunidade cristã e a vida no mundo, evita duas grandes
armadilhas presentes na história do cristianismo, a saber: a)
secularismo – tendência que esvazia o conteúdo místico
da fé, transformando o cristão num militante humanista;
b) espiritualismo – tendência que esvazia o conteúdo
ético da fé transformando o cristão num “monge”,
que se preocupa apenas com seu deleite “espiritual”.
ATRIBUIÇÕES DO MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO
1. Viabilizar e apoiar a execução do Projeto
de Educação Teológica, bem como os programas e
projetos de educação cristã e secular;
2. Supervisionar e acompanhar o processo de credenciamento dos seminários
junto ao Ministério da Educação;
3. Apoiar a execução de programas e projetos de música
e liturgia;
4. Supervisionar o trabalho da Fundação Eduardo Carlos
Pereira no âmbito da educação teológica;
5. Integrar e supervisionar o Museu e Arquivo Histórico da IPI
do Brasil;
6. Acompanhar, com a Secretaria de Pastoral, o desenvolvimento do programa
de educação teológica e continuada de pastores;
7. Prover material de educação cristã acessível
quanto à linguagem e custos;
8. Integrar o planejamento das Secretarias de Educação
Teológica e Continuada, Educação Cristã,
Educação Secular, e Música e Liturgia;
9. Integrar seu planejamento com o dos Ministérios da Missão
e da Comunicação;
10. Reportar-se ao secretário geral no cumprimento de suas atribuições;
11. Prestar relatório anual de suas atividades à Diretoria
da Assembléia Geral e à Comissão Executiva da Assembléia
Geral.